Sobre o desapego.

“Amar é permitir, sempre… Amar é deixar que o outro vá.”
Edson Marques

O desapego é um talento difícil de aprender. Raramente nascemos trabalhados no desapego. Que nada. Mas é natural, a natureza do ser humano é egoísta, como qualquer animal somos calibrados no tal do “instinto de sobrevivência” – um jeito cordial de dizer que estamos, na hora do vamo ver!, “cagando e andando pros outros!”. Don’t get me wrong, felizmente também temos a capacidade de amar, de nos entregarmos, de dar a vida por um outro que amemos.
Não, não estou louca ainda. Tenho pensado muito nisto nos últimos dias.

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Madiba – como é carinhosamente chamado Nelson Mandela – foi hospitalizado, no início do mês, por uma infecção recorrente nos pulmões. Perfeitamente compreensível e até surpreendente que só aos 94 se manifeste com tanta gravidade considerando o histórico de pneumonias e turbeculose que ele teve que combater – não bastasse tudo o resto – ainda durante o tempo de prisão. Sempre que visualizo a cela minúscula, a manta e a esteira no chão gelado de cimento e imagino o frio das correntes de Cape Town no meio de uma ilha, me sinto desfalecer em crise de hiportemia.

Madiba é um pai para os africanos. Admirado pelo mundo. Um ídolo. Um guia. A esperança. O sonho. O sonho de muitos africanos, de uma África livre. Livre acima de tudo na mente (“Liberdade p’ra dentro da cabeça” passando em trilha sonora na minha cabeça agora.). A luta dele por um ideal de liberdade e igualdade não é novidade para o mundo. Por uma África do Sul que se tornasse na Nação Arco-Íris. Ideal esse pelo qual declarou estar disposto a dar a sua vida. E tenho em mim a certeza de que embora não vá morrer em combate, ele deu. Tanto deu, que algumas vezes pôs em causa relações com pessoas muito próximas que pura e simplesmente não entendiam – mais do que isso, não aceitavam – a visão de reconciliação – em lugar do previsível caminho da vingança – que tinha ao sair da prisão e ser eleito Presidente. E mesmo que muitos continuem sem entender, aceitar ou ambos, os africanos, em especial os sul-africanos sentem-no como a cola que os mantém juntos, que os lidera ao almejado sonho, que conserva o ideal. Aquele que é capaz de acções que nem mesmo eles se vêem capazes de tomar. Aquele que é um humano tão melhor que nós. Tão melhor do que aquilo que nos julgamos, com todos os nossos rancores, capazes de ser. E talvez seja isso que torna insuportável a hipótese de o perder.

Desde que foi hospitalizado, um desespero tomou conta. Uma ansiedade sem tamanho. Uma aflição desmedida. As pessoas cravam as garras na fé, orando e implorando a todos os deuses que não nos tirem o homem que a gente vê acenando na meta quando nos exercitamos para nos tornarmos pessoas melhores. E olha que ele tem defeitos. E os reconhece. Talvez seja essa o outro talento que nos encanta: o de conseguir enxergar em si os defeitos e os aceitar, engolir a seco e trabalhá-los, aceitar-se imperfeito e ser o seu próprio bad cop. A África do Sul se mobiliza em vigílias e canções à porta do hospital, flores, estátuas de areia. O mundo inunda as redes sociais de posts com preces, com citações de seus dizeres – que muitos tomam como ensinamentos e lições de vida -, com fotografias, com textos que enaltecem e homenageiam o grande (super) humano que ele é, meio em jeito de auto-terapia para preparação do inevitável. As manchetes gritam que Mandela luta para sobreviver. Eu digo que nós é que lutamos para o manter vivo. Que relutamos em desligar as máquinas que reforçam a ilusão de que o poderemos manter infinitamente por perto. Mas até que ponto não será puro egoísmo de filho nosso? Amamo-lo, sem dúvida, mas justamente por isso acho que é altura de o deixarmos ir. De o libertarmos. De mostrar que aprendemos o valor da liberdade do outro que ele nos ensinou. Acho que a melhor forma de mostrar nosso amor, nossa admiração, é justamente deixá-lo ir com a certeza de que os valores que nos ensinou em nós vivem e serão sempre a inspiração que nos guia.

Ele não foi o primeiro a lutar por liberdade, igualdade, paz. Por isso, por maior que seja o meu medo, me recuso a acreditar que seja o único que ainda exista capaz disso no mundo. Ele já fez a sua parte, talvez tenha feito muito mais do que lhe cabia. O dever de continuar é nosso. Não mais dele. Já nos deu tudo de si.

Nos vemos com medo de o perder porque tememos o efeito de desunião que pode nascer. Nos vemos com medo de o perder, porque temos medo de nos perdermos também, de não acharmos o caminho por onde continuar. Temos medo de o perder porque tememos que junto com ele, morra o sonho. Mas estamos fazendo tudo errado. Não temos que mantê-lo aqui à força para manter o sonho vivo. Temos que manter o sonho vivo para honrá-lo e mostrar que sua luta não foi em vão. Porque é assim que ele vai continuar vivendo também.

Minha alma dói, meu coração aperta, minhas entranhas se reviram só de imaginar o momento cada vez mais certo. Escrevo esse texto sentindo lágrimas indo e vindo mas mesmo assim adapto Maria Gadú:

Vai tranquilo Madiba, teu rebanho tá pronto.

“Me mostre um caminho agora
Um jeito de estar sem você
O apego, não quer ir embora
Diaxo! Ele tem que querer.”

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