Coração polígamo

Sim sim, polígamo!

Faz umas horinhas que li a crónica do meu amigo Gugu. Para quem não a vai ler, fala sobre os corações casados com vários, ou pelo menos mais do que um, países, lugares. Que nos marcam, onde vivemos muito, pouco ou tempo nenhum.

E dei por mim a pensar, em algo que pensei já faz alguns dias. Começou com Copa do Mundo. Já ouvi várias teorias sobre o evento maior de todos os tempos desde os tempos de sempre. Já ouvi que ele une povos, que durante um mês todos vivem sintonizados na mesma onda – engraçado que sempre que penso nisso me corre ao pensamento a imagem da torcida fazendo a OLA nas bancadas! Adiante que já estou devaneiando, também já ouvi que a Copa é uma estratégia para nos distrair dos reais problemas no mundo – políticos, económicos, sociais – uma espécie de lavagem cerebral. Não estou, pelo menos neste momento, p’ra me espreguiçar aqui em correntes pensantes sobre possíveis conspirações ou podridões afins. Esta Copa especialmente, teve bastante polémica em volta, mas se me estico, não saímos daqui hoje.

Isolando-nos um pouco da muvuca em volta, deixem-me chegar onde quero.

Pois bem, AMO futebol – de fora das quatro linhas, com todo o estilo que a Natureza me deu – e sempre adorei Copa do Mundo; antes, mais nova, não via se calhar muito do que vejo e me entristece hoje no mundo da bola. À parte isso, continua sendo desporto para me fazer chorar, rir, gritar, ter taquicardia, estômago embrulhado, suor frio, siricutico e tudo a que minha condição feminina tipicamente histérica me dá direito!

Depois do primeiro jogo de futebol de Portugal, na fase de grupos – por onde ficou – fiquei triste desapontada com muitas reações que beiravam o ridículo reclamando nacionalismos. Era um tal de “ingratos, falem alemão então!” contra quem sendo de origem portuguesa ou tendo o Português como língua mãe apoiava a Alemanha; pra lá um tal de “bem feito aos colonos!” que quem sendo da mesma origem antes mencionada lançava contra os adeptos de Portugal.

Pensei, bom, eu devo estar doente de ideais, porque não entendo nem um lado, nem outro.

Gentes, que loucura é essa de ser obrigado a apoiar seja qual for a selecção? Do que pude perceber os critérios para escolher a selecção são – e sem ordem de prioridade porque aí já depende da insanidade individual:

1 – Língua oficial falada: só aqui já teríamos uma salada. Brasileiros que ganharam o português de Portugal, abandonem já o verde, amarelo e azul e incorporem o vermelho e o verde. Moçambique, Cabo Verde, Angola, e demais PALOP’S vocês mesmo é que nem têm desculpa, vossos países nem estão no Mundial! (outra que se ouviu muito por )

2 – Continente de origem: ora aqui temos o primeiro nó, todos vocês que falei aí em cima, vamos embora, dispam Portugal e vistam Nigéria, Camarões, Costa do Marfim, Argélia. Ou então vistam todas ao mesmo tempo! Maigode, será que não é um atentado contra a identidade apoiar CINCO? Será que já não sei mais quem sou? Desespero define. Crise de ansiedade caminhando p’ra depressão se avizinham.

3 – Equipa de campeonatos nacionais que apoiam: aqui temos outro clash of titans, porque grande parte das pessoas que vi ter estas discussões vê campeonato português, vê campeonato inglês, vê campeonato espanhol. Ora, só partindo daí, já apoiavam 3 selecções. Se juntarmos a isso o facto de cada equipa ter jogadores de nacionalidades diferentes aí mermão, e salvo a expressão, fudeu

Pronto, chegamos ao ponto que queria. Pessoas, a gente apoia a selecção pelos motivos que as nossas almas ditam, de acordo com as vivências que temos. Meu coração tem um pedacinho a morar em Maputo, outro a bater pelo Rio, outro a respirar ares de Portugal. Cada um desses lugares me morou e mora em mim até hoje. Porque eu não sou de ninguém, sou de todos eles. Porque como disse e bem o meu amigo – embora com outras palavras -, a partir do momento em que te deixas adoptar por um lugar que não o que nasceste e cresceste, nunca mais serás filho de mãe (e quem diz mãe diz pai, escolham o que melhor vos couber!) única. E como bom filho, amarás com a mesma saudade cada uma.

Por isso, pessoas, relaxem, e não chateiem aqueles de nós que também escolhem apoiar uma selecção só porque desde criança e por motivo inexplicável gamaram no Diego Maradona e por isso apoiam a Argentina (guilty!). Ou porque amam Puyol e mesmo que ele já não esteja convocado têm Espanha sacudindo o peito (guilty… again!). Ou simplesmente porque sentem orgulho e vontade de ver uma selecção africana ir tão longe e apoiam a Argélia (sim, ninguém disse que o factor continente não era válido, apenas não é obrigatório!). Liberdade, amigos, liberdade é bom e todo mundo merece a sua. De outra maneira, vou chegar a casa agora e fazer as malas do meu irmão mais novo porque ele apoia a Alemanha. E escolher uma casa de reabilitação mental p’ro meu homem porque bem, por origens portuguesas (pai e mãe) apoia Portugal, porque simplesmente sempre gostou apoia o Brasil, mas quase teve um enfarte pela Inglaterra porque é doido no Manchester United. Visualizou melhor o nada necessário caos agora? Grata.

Deixem os corações – seus e dos outros – pulsar pela camisola (ou camisolas!) que mais aconchego e lar lhes trouxer ao peito.

Meu iTunes de gozação comigo agora toca:

“Bom dia Rio,
Arpoador!
Bom dia Cristo Redentor
Céu azul, luz e calor”

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(In)quietudes #1

Percebi o quanto sinto a falta do perto. O perto nos aconchega, nos dá colo. O perto nos humaniza. O perto é aquela lareira deliciosa na noite gelada de inverno.

Não pensei que a próxima vez em que iria à tua casa, seria de encontro marcado com a certeza de que nunca mais lá voltarias. Senti-te a falta em cada detalhe da sala, dos corredores, inclusive naqueles azulejos embutidos na parede que passei a viagem inteira imaginando se ainda lá estariam. Eles estavam. Na minha cabeça o filme de um Natal adolescente em que ouvíamos “Noite Branca” dos Anjos como se fosse um hino da República, que passava em replay. Senti-te a falta no tom de voz calmo, comedido, sereno que não chegava nunca.

E tudo o que eu precisava era do perto outra vez.

E como gerir as emoções chiando em contramão? A dor e a tristeza que nos carimbou o boarding pass do avião que chocava com a alegria do reencontro, com os risos e sorrisos que o perto nos traz.

A culpa desvaneceu-se enfim, quando percebi que mais uma vez nos uniste, nos juntaste. E ainda que por apenas 3 dias, estivemos mais juntos que em uma década. Ainda que com peças soltas, o puzzle estava firme. E que ao teu jeito, à tua maneira, arranjaste forma de nos sentar à volta da mesma mesa para partilhar as gargalhadas e as preocupações. À tua maneira fizeste um arranjo para que voltássemos a partilhar calor e abraços. Na mesma medida lágrimas e amparo. E por tudo isso, obrigada. Obrigada por mesmo no momento de mais profunda dor, nos mostrares que enquanto estivermos juntos, há-de sempre haver um sorriso, uma gargalhada estrondosa e muito amor no pano de fundo!

A saudade só mudou de endereço. Que em frente, encontres apenas paz!

À minha família, que amo. A que valorizemos sempre e mais o perto; que lutemos para fazê-lo acontecer antes que o distante se torne o impercorrível.