Sobre a desesperança.

Terça-feira que passou, passei o dia todo jururu. Morna. Inerte. Triste.

Um homem foi morto. E digo homem no sentido de ser humano. E homem nenhum deveria ser morto por verbalizar o que lhe vai no pensamento ou na alma. Aliás, homem nenhum deveria ser morto, deveríamos apenas morrer e não ser arrancados das nossas vidas, do que ainda tínhamos por viver, do que ainda tínhamos por dizer, do que ainda tínhamos por sonhar, das nossas pessoas, dos nossos amores, das nossas dores.

Não estou aqui para discutir teorias políticas que haja por detrás, por frente ou pelos lados, sendo muito honesta é o que me interessa menos. Não estou aqui para discutir, ponto. Tenho é a alma aflita, porque rodopio no centro dela e continuo sem entender que tipo de falta de sentir leva qualquer ser (des)humano a arquitectar algo tão… podre. Senti vergonha, senti nojo, de pertencer a esta espécie que de sapiens talvez tenha só o pózinho que fica no fundo do pote vazio de açúcar. Respeitamo-nos cada vez menos, resolvemos tudo na base da intolerância, ambição e poder são gritos de guerra. Fazia (muito) tempo que não sentia tanta desesperança. O que é que faz o mal valer tanto a pena? Em que escanteio deixamos largada nossa essência? O tempo todo me vinha à cabeça a cena do filme Dawn of the Planet of the Apes em que um diz p’ro outro “ape not kill ape”. Um princípio básico que todo animal respeita (sendo nós a excepção que confirma a regra, palmas!), que nem deveria ser ensinado, não devia nem ser princípio, devia ser instinto. E nós aqui, cagando em tudo – não me desculpem pela expressão.

Só sei que, se continuar do jeito que tá, daqui a pouco a frase de ordem vai ser: o luto continua! Porque a luta, estamos perdendo para nós mesmos, batalha por batalha.

p.s. e eu sei que esta sensação vai passar, que verei de novo a esperança em cada sorriso que preenche minha alma, em cada coração que faz parte de mim, em cada pedacinho de paz em que me encontro.

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| Atum e Companhia. |

Já faz algum tempo, muito tempo, que descobri que na cozinha morava um pedaço enorme da minha alma. Ali, em meio aos temperos e colheres de pau, sinto-me uma maga doida jogando tudo no caldeirão com uma risada algo demoníaca mas fazendo resultar em magia digna de Fada Sininho; em meio àquele que hoje julgo ser o melhor cheiro do mundo – cebola fritando no azeite – sou eu mesma, crio, viajo, experimento, danço, serelepeio, (so)rio-me sozinha e basto-me; e tudo isso sabe tão bem que a cozinha passou a ser a casa para onde quero voltar no final do dia. E enquanto não posso fazer disso a minha vida, vou fazendo disso experiências de vida para aqueles que amo.

E eu que adoro blogar e fuçar em blogs especialmente de comida, senti-me egoísta por não usar o meu também para partilhar as minhas “cozinhâncias”. Vamos a isto!

Então, a pessoa, voltou para a dieta (coff, coff) esta semana e ontem lembrei de um postão enorme de atum que me sorria todos os dias do alto do congelador. Decidi que tinha chegado a hora de nos conhecermos melhor!

Face à dieta, não pensei em mais nada senão comê-lo grelhado mas não queria só temperá-lo com sal e pimenta, queria um saborzinho a mais! Pensei em laranja, fucei um pouco nesse mundo de receitas acima e decidi experimentar esta – com algumas adaptações pessoais:

Atum em Marinada de Laranja e Molho de Soja

1kg de atum em postas (gordinhas de preferência)
½ xícara de molho de soja (usei um com sódio reduzido)
1 xícara de sumo de laranja
2 colheres de sopa de sumo de limão
4 colheres de azeite
5 dentes de alho amassados
Coentro, óregano (ambos frescos, de preferência) sal e pimenta, a gosto

Faz-se num recipiente suficientemente grande, um molho com todos os ingredientes (excepto o atum, óbvio hehehe). Põem-se os filetes a marinar por cerca de uma hora na geladeira. Às vezes eu uso um daqueles freezer bags, que são perfeitos para marinar; é só pôr o molho lá dentro, no caso juntar os filetes de atum, fechar e deixá-los quietinhos a namorarem-se.

Prepara-se o grelhador (usei um daqueles de boca de fogão mesmo); unta-se bem de leve com um fiozinho de azeite. Tipo, é mesmo só um fiozinho, porque senão vira fritura!

Grelham-se os filetes. Ora bem, essa parece uma frase simples, mas aqui residem ambos, o segredo e o perigo. Aprendi com o tempo que o atum tem uma carne manhosa, cheia de caprichos. Tal como a carne de avestruz, podem ser as coisas mais tenras dessa vida, mas se passam do ponto, ficam mais duras e “chuinguentas” do que uma cabeça teimosa! Então, o filete de atum tem que ser vigiado enquanto grelha, quando começar a ficar cozido num dos lados (a carne começa a ficar clara) – por aí depois de cerca de 2 minutos – vira-se o filete e deixa-se cozinhar mais ou menos pelo mesmo tempo. O resultado vai ser que a carne no meio, vai estar ainda com o tom mal passado. E para quem tem pavor de sushi (que não é o meu caso), ela não fica sabendo a carne crua não!
No entanto, se acharem que é demais p’ros vossos paladares processarem, podem arriscar e deixá-la cozinhar um pouco mais, retirando ASSIM QUE a carne ficar clarinha como o resto do filete – tive que fazer assim para a minha mãe que faz parte do grupo pavorento que mencionei acima e tinha a mania de mandar voltar o prato no restaurante sempre que pedia filete de atum porque dizia que vinha cru! Até que desenhei que era mesmo dessa forma que era aconselhável preparar hahahahahaha.

Ah! Muitas receitas dizem para dispensar a marinada. Eu cá não sou gulosa de dispensar seja o que for, por isso pus um fio de azeite numa frigideira, fritei umas rodelas de cebola, juntei o molho da marinada, mais sumo de meia laranja e deixei ele reduzir nele mesmo. Juntei também uma colher de chá de açúcar mascavado só pra dar uma caramelizada no molho. E juro que o docinho dele, com a acidez e sal do atum, formou um par de amor eterno – a primeira dança foi no meu estômago!

O resultado foi este:

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Sim, esqueci de tirar foto do centro do filete para visualizarem melhor o ponto mal passado, podem me bater.

Uh, uh! E, receita adaptada de All Recipes.

Coração polígamo

Sim sim, polígamo!

Faz umas horinhas que li a crónica do meu amigo Gugu. Para quem não a vai ler, fala sobre os corações casados com vários, ou pelo menos mais do que um, países, lugares. Que nos marcam, onde vivemos muito, pouco ou tempo nenhum.

E dei por mim a pensar, em algo que pensei já faz alguns dias. Começou com Copa do Mundo. Já ouvi várias teorias sobre o evento maior de todos os tempos desde os tempos de sempre. Já ouvi que ele une povos, que durante um mês todos vivem sintonizados na mesma onda – engraçado que sempre que penso nisso me corre ao pensamento a imagem da torcida fazendo a OLA nas bancadas! Adiante que já estou devaneiando, também já ouvi que a Copa é uma estratégia para nos distrair dos reais problemas no mundo – políticos, económicos, sociais – uma espécie de lavagem cerebral. Não estou, pelo menos neste momento, p’ra me espreguiçar aqui em correntes pensantes sobre possíveis conspirações ou podridões afins. Esta Copa especialmente, teve bastante polémica em volta, mas se me estico, não saímos daqui hoje.

Isolando-nos um pouco da muvuca em volta, deixem-me chegar onde quero.

Pois bem, AMO futebol – de fora das quatro linhas, com todo o estilo que a Natureza me deu – e sempre adorei Copa do Mundo; antes, mais nova, não via se calhar muito do que vejo e me entristece hoje no mundo da bola. À parte isso, continua sendo desporto para me fazer chorar, rir, gritar, ter taquicardia, estômago embrulhado, suor frio, siricutico e tudo a que minha condição feminina tipicamente histérica me dá direito!

Depois do primeiro jogo de futebol de Portugal, na fase de grupos – por onde ficou – fiquei triste desapontada com muitas reações que beiravam o ridículo reclamando nacionalismos. Era um tal de “ingratos, falem alemão então!” contra quem sendo de origem portuguesa ou tendo o Português como língua mãe apoiava a Alemanha; pra lá um tal de “bem feito aos colonos!” que quem sendo da mesma origem antes mencionada lançava contra os adeptos de Portugal.

Pensei, bom, eu devo estar doente de ideais, porque não entendo nem um lado, nem outro.

Gentes, que loucura é essa de ser obrigado a apoiar seja qual for a selecção? Do que pude perceber os critérios para escolher a selecção são – e sem ordem de prioridade porque aí já depende da insanidade individual:

1 – Língua oficial falada: só aqui já teríamos uma salada. Brasileiros que ganharam o português de Portugal, abandonem já o verde, amarelo e azul e incorporem o vermelho e o verde. Moçambique, Cabo Verde, Angola, e demais PALOP’S vocês mesmo é que nem têm desculpa, vossos países nem estão no Mundial! (outra que se ouviu muito por )

2 – Continente de origem: ora aqui temos o primeiro nó, todos vocês que falei aí em cima, vamos embora, dispam Portugal e vistam Nigéria, Camarões, Costa do Marfim, Argélia. Ou então vistam todas ao mesmo tempo! Maigode, será que não é um atentado contra a identidade apoiar CINCO? Será que já não sei mais quem sou? Desespero define. Crise de ansiedade caminhando p’ra depressão se avizinham.

3 – Equipa de campeonatos nacionais que apoiam: aqui temos outro clash of titans, porque grande parte das pessoas que vi ter estas discussões vê campeonato português, vê campeonato inglês, vê campeonato espanhol. Ora, só partindo daí, já apoiavam 3 selecções. Se juntarmos a isso o facto de cada equipa ter jogadores de nacionalidades diferentes aí mermão, e salvo a expressão, fudeu

Pronto, chegamos ao ponto que queria. Pessoas, a gente apoia a selecção pelos motivos que as nossas almas ditam, de acordo com as vivências que temos. Meu coração tem um pedacinho a morar em Maputo, outro a bater pelo Rio, outro a respirar ares de Portugal. Cada um desses lugares me morou e mora em mim até hoje. Porque eu não sou de ninguém, sou de todos eles. Porque como disse e bem o meu amigo – embora com outras palavras -, a partir do momento em que te deixas adoptar por um lugar que não o que nasceste e cresceste, nunca mais serás filho de mãe (e quem diz mãe diz pai, escolham o que melhor vos couber!) única. E como bom filho, amarás com a mesma saudade cada uma.

Por isso, pessoas, relaxem, e não chateiem aqueles de nós que também escolhem apoiar uma selecção só porque desde criança e por motivo inexplicável gamaram no Diego Maradona e por isso apoiam a Argentina (guilty!). Ou porque amam Puyol e mesmo que ele já não esteja convocado têm Espanha sacudindo o peito (guilty… again!). Ou simplesmente porque sentem orgulho e vontade de ver uma selecção africana ir tão longe e apoiam a Argélia (sim, ninguém disse que o factor continente não era válido, apenas não é obrigatório!). Liberdade, amigos, liberdade é bom e todo mundo merece a sua. De outra maneira, vou chegar a casa agora e fazer as malas do meu irmão mais novo porque ele apoia a Alemanha. E escolher uma casa de reabilitação mental p’ro meu homem porque bem, por origens portuguesas (pai e mãe) apoia Portugal, porque simplesmente sempre gostou apoia o Brasil, mas quase teve um enfarte pela Inglaterra porque é doido no Manchester United. Visualizou melhor o nada necessário caos agora? Grata.

Deixem os corações – seus e dos outros – pulsar pela camisola (ou camisolas!) que mais aconchego e lar lhes trouxer ao peito.

Meu iTunes de gozação comigo agora toca:

“Bom dia Rio,
Arpoador!
Bom dia Cristo Redentor
Céu azul, luz e calor”

(In)quietudes #1

Percebi o quanto sinto a falta do perto. O perto nos aconchega, nos dá colo. O perto nos humaniza. O perto é aquela lareira deliciosa na noite gelada de inverno.

Não pensei que a próxima vez em que iria à tua casa, seria de encontro marcado com a certeza de que nunca mais lá voltarias. Senti-te a falta em cada detalhe da sala, dos corredores, inclusive naqueles azulejos embutidos na parede que passei a viagem inteira imaginando se ainda lá estariam. Eles estavam. Na minha cabeça o filme de um Natal adolescente em que ouvíamos “Noite Branca” dos Anjos como se fosse um hino da República, que passava em replay. Senti-te a falta no tom de voz calmo, comedido, sereno que não chegava nunca.

E tudo o que eu precisava era do perto outra vez.

E como gerir as emoções chiando em contramão? A dor e a tristeza que nos carimbou o boarding pass do avião que chocava com a alegria do reencontro, com os risos e sorrisos que o perto nos traz.

A culpa desvaneceu-se enfim, quando percebi que mais uma vez nos uniste, nos juntaste. E ainda que por apenas 3 dias, estivemos mais juntos que em uma década. Ainda que com peças soltas, o puzzle estava firme. E que ao teu jeito, à tua maneira, arranjaste forma de nos sentar à volta da mesma mesa para partilhar as gargalhadas e as preocupações. À tua maneira fizeste um arranjo para que voltássemos a partilhar calor e abraços. Na mesma medida lágrimas e amparo. E por tudo isso, obrigada. Obrigada por mesmo no momento de mais profunda dor, nos mostrares que enquanto estivermos juntos, há-de sempre haver um sorriso, uma gargalhada estrondosa e muito amor no pano de fundo!

A saudade só mudou de endereço. Que em frente, encontres apenas paz!

À minha família, que amo. A que valorizemos sempre e mais o perto; que lutemos para fazê-lo acontecer antes que o distante se torne o impercorrível.

“E no meio de tanta gente eu encontrei você…”

Na verdade eu acho que foste tu quem me encontrou. Tu e o teu emaranhado de cachos pretos brilhantes. Tu e os olhos castanho-esverdeados em que me morro de amor (e de inveja!). Encontrei-me no teu abraço como só me encontro na segurança das minhas paredes café e vermelhas. Como só me encontro no cheiro dos incensos e essências de ylang ylang ou de cidreira quando me embalam.
Passamos por poucas não tão boas. Mas passamos por inúmeras que de tão boas parecem feitas só de sonho.
E todos os dias eu aprendo. Aprendo que esse papo de que relacionamento depois de 2 anos fica chato é bullshit de quem não quer se dar ao trabalho de mudar a decoração de tempos em tempos. Não tem nada mais bonito que redecorar um espaço que amamaos e tu no teu jeito robialac e estabanado de ser me ensinas isso todo dia. Mudar a cor de um beijo. Pendurar uma moldura com foto nova no abraço. Mudar a posição das briguinhas como manda o feng shui, pra energia circular e nos construirmos nelas. Reciclar os temas de conversa antes de dormir. Colocar mais almofadas nas guerras de “cosquinha”. Ou pelo menos, trocar as fronhas delas. E todo o dia eu quero mais. Quero mais da sintonia gastronómica desmedida. Quero mais de me enroscar com meus pés frios nas tuas pernas. Quero mais da liberdade – e sobretudo do carinho – que tens de me dizer quando um pneu começa a tomar contornos indesejados haha! Quero mais das mãos dadas durante uma roadtrip. Quero mais de sentir junto saudade do Michael Joseph Jackson. Quero mais de podermos discordar dos pontos de vista um do outro. Quero mais de agradeceres a ti mesmo no estilo exibidoémeunomedomeio “once again, David was right! Thank you! Thank you!” cada vez que estás certo e eu errada. Quero mais de sonhar junto. Quero mais de discutir a rotina do dia a cada dia. Quero mais dos abraços e beijos cada vez que te cozinho uma coisa muito gostosa. Quero mais das lareiras que só tu sabes acender. Quero mais da empatia nas dores, alegrias e conquistas um do outro.  Quero mais de me segurares, com sermões ou com lullabies quando vou cair. Quero mais da segurança e do calor nos teus (a)braços. Quero mais de te rires de mim quando choro a ver uma série. Quero mais de me irritar quando dizes “ooowwnn”. Quero, mais e mais. Porque sou gulosa, como tu mesmo dizes. Porque quanto mais me dás, mais de ti, mais de nós quero. Sempre.
Obrigada por nasceres pra mim. Obrigada por nasceres amor em mim.

Parabéns meu Amor.
To my you, from your me.

Te amo.

Amor

Sobre o desapego.

“Amar é permitir, sempre… Amar é deixar que o outro vá.”
Edson Marques

O desapego é um talento difícil de aprender. Raramente nascemos trabalhados no desapego. Que nada. Mas é natural, a natureza do ser humano é egoísta, como qualquer animal somos calibrados no tal do “instinto de sobrevivência” – um jeito cordial de dizer que estamos, na hora do vamo ver!, “cagando e andando pros outros!”. Don’t get me wrong, felizmente também temos a capacidade de amar, de nos entregarmos, de dar a vida por um outro que amemos.
Não, não estou louca ainda. Tenho pensado muito nisto nos últimos dias.

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Madiba – como é carinhosamente chamado Nelson Mandela – foi hospitalizado, no início do mês, por uma infecção recorrente nos pulmões. Perfeitamente compreensível e até surpreendente que só aos 94 se manifeste com tanta gravidade considerando o histórico de pneumonias e turbeculose que ele teve que combater – não bastasse tudo o resto – ainda durante o tempo de prisão. Sempre que visualizo a cela minúscula, a manta e a esteira no chão gelado de cimento e imagino o frio das correntes de Cape Town no meio de uma ilha, me sinto desfalecer em crise de hiportemia.

Madiba é um pai para os africanos. Admirado pelo mundo. Um ídolo. Um guia. A esperança. O sonho. O sonho de muitos africanos, de uma África livre. Livre acima de tudo na mente (“Liberdade p’ra dentro da cabeça” passando em trilha sonora na minha cabeça agora.). A luta dele por um ideal de liberdade e igualdade não é novidade para o mundo. Por uma África do Sul que se tornasse na Nação Arco-Íris. Ideal esse pelo qual declarou estar disposto a dar a sua vida. E tenho em mim a certeza de que embora não vá morrer em combate, ele deu. Tanto deu, que algumas vezes pôs em causa relações com pessoas muito próximas que pura e simplesmente não entendiam – mais do que isso, não aceitavam – a visão de reconciliação – em lugar do previsível caminho da vingança – que tinha ao sair da prisão e ser eleito Presidente. E mesmo que muitos continuem sem entender, aceitar ou ambos, os africanos, em especial os sul-africanos sentem-no como a cola que os mantém juntos, que os lidera ao almejado sonho, que conserva o ideal. Aquele que é capaz de acções que nem mesmo eles se vêem capazes de tomar. Aquele que é um humano tão melhor que nós. Tão melhor do que aquilo que nos julgamos, com todos os nossos rancores, capazes de ser. E talvez seja isso que torna insuportável a hipótese de o perder.

Desde que foi hospitalizado, um desespero tomou conta. Uma ansiedade sem tamanho. Uma aflição desmedida. As pessoas cravam as garras na fé, orando e implorando a todos os deuses que não nos tirem o homem que a gente vê acenando na meta quando nos exercitamos para nos tornarmos pessoas melhores. E olha que ele tem defeitos. E os reconhece. Talvez seja essa o outro talento que nos encanta: o de conseguir enxergar em si os defeitos e os aceitar, engolir a seco e trabalhá-los, aceitar-se imperfeito e ser o seu próprio bad cop. A África do Sul se mobiliza em vigílias e canções à porta do hospital, flores, estátuas de areia. O mundo inunda as redes sociais de posts com preces, com citações de seus dizeres – que muitos tomam como ensinamentos e lições de vida -, com fotografias, com textos que enaltecem e homenageiam o grande (super) humano que ele é, meio em jeito de auto-terapia para preparação do inevitável. As manchetes gritam que Mandela luta para sobreviver. Eu digo que nós é que lutamos para o manter vivo. Que relutamos em desligar as máquinas que reforçam a ilusão de que o poderemos manter infinitamente por perto. Mas até que ponto não será puro egoísmo de filho nosso? Amamo-lo, sem dúvida, mas justamente por isso acho que é altura de o deixarmos ir. De o libertarmos. De mostrar que aprendemos o valor da liberdade do outro que ele nos ensinou. Acho que a melhor forma de mostrar nosso amor, nossa admiração, é justamente deixá-lo ir com a certeza de que os valores que nos ensinou em nós vivem e serão sempre a inspiração que nos guia.

Ele não foi o primeiro a lutar por liberdade, igualdade, paz. Por isso, por maior que seja o meu medo, me recuso a acreditar que seja o único que ainda exista capaz disso no mundo. Ele já fez a sua parte, talvez tenha feito muito mais do que lhe cabia. O dever de continuar é nosso. Não mais dele. Já nos deu tudo de si.

Nos vemos com medo de o perder porque tememos o efeito de desunião que pode nascer. Nos vemos com medo de o perder, porque temos medo de nos perdermos também, de não acharmos o caminho por onde continuar. Temos medo de o perder porque tememos que junto com ele, morra o sonho. Mas estamos fazendo tudo errado. Não temos que mantê-lo aqui à força para manter o sonho vivo. Temos que manter o sonho vivo para honrá-lo e mostrar que sua luta não foi em vão. Porque é assim que ele vai continuar vivendo também.

Minha alma dói, meu coração aperta, minhas entranhas se reviram só de imaginar o momento cada vez mais certo. Escrevo esse texto sentindo lágrimas indo e vindo mas mesmo assim adapto Maria Gadú:

Vai tranquilo Madiba, teu rebanho tá pronto.

“Me mostre um caminho agora
Um jeito de estar sem você
O apego, não quer ir embora
Diaxo! Ele tem que querer.”